20 Abril 2009

eterno retorno

andava pela cidade procurando perder-se
angustiava-se
tomava caminhos inéditos tentando não encontrar familiaridades

mas conhecia até os lugares onde nunca estivera
tudo lhe lembrava passagens não vividas
gosto de déjà vu em cada sombra frondosa, casa vazia, muro de era, banco coberto de orvalho

tudo ja havia sido cenário de sua vida não consumada
e nada lhe trazia saudade.

27 Fevereiro 2009

O leque

Quanto vale o seu amor?
Quanto é mensurável um sentimento?
Que palavras encerram um desejo?
É possivel que nada jamais possa ser tão grande quanto uma vontade?

Falo, e meço e sinto, e volto a perguntar:
o que você faria por todas as suas vontades?

29 Outubro 2008

Paredes




Limpou toda a parede de lembranças: retirava as telas, os quadros, os móbiles.

Ia apoiando-os no chão encardido.

Até retirar cada peça antiga que, ao sair, deixava uma memória de poeira na parede.

Afinal, viu a sala como ela: cheia das marcas do tempo.

Ilha

Pensava que o sentido de tudo estaria no espaço vazio que a circundava.
É que imersa nesse vazio, ouvia extasiada o silêncio. E tantas coisas que lhe contava sobre os tempos.

A ausência de tudo lhe ensinou a medir impossibilidades.

27 Julho 2008

Vestindo




Meu olhar sobre o inédito
Vai vestindo-o de significados soltos, desconexos.
Até que o nunca visto se sature de tantos retalhos de imagem que ja não seja possível
Chamá-lo de inédito.

02 Junho 2008

Mãos pequenas

Hoje, enquanto eu dormia,
a menina entrou no quartinho dos fundos pela janela.
Aquele cômodo escuro onde se guardam fardos de medos e outras angústias.

E que, com a presença da menina, se iluminou
mais e mais.
E visto assim parecia um cabaré, um circo ou coisa afim.
Com seus muitos baús de guardados e fantasias em retalhos.

E, ao ver a serenidade com que ela vestia e tirava as fantasias,
e escolhia adereços com sua mãos pequenas
criando enredos novos e novas cenas.
Eu amanheci suave.

21 Abril 2008

Germana

Se a garganta arranha e o neon ainda ofusca.
Me pede uma envelhecida, e me conta uma mentira à toa...

Outono


e o outono segue me enganado com suas paisagens de cores esmaecidas e seus ventos incidentais, ora mornos, ora molhados...

e eu que agora quero sol, antes só quis sombra,

penso na falta que faz o inverno e sua honestidade...